26 de novembro de 2010

Lírios

O Peregrino ia sendo levado para o Oriente por um mar sem ondas, sem sombra de vento ou de espuma na quilha. A luz era cada vez mais brilhante. Ninguém dormia ou comia, mas tiravam do mar baldes de água brilhante, mais forte do que o vinho e mais úmida e líquida do que a água comum, bebendo-a em grandes goles, em silêncio.
Dois marinheiros, que começaram a viagem já com certa idade, iam ficando cada vez mais novos. Todos a bordo estavam muito alegres e animados, mas uma animação silenciosa. Falavam às vezes, mas apenas por murmúrios. Apossara-se deles a placidez daquele mar derradeiro.
Um dia Caspian perguntou a Drinian:
– O que está vendo aí em frente?
– Tudo branco.
– É também o que vejo. Não faço idéia do que seja.
– Se estivéssemos numa latitude alta, diria que era gelo. Mas aqui não pode ser. Em todo o caso, acho melhor pôr os homens ao remo e agüentar o barco contra a corrente. Não podemos ir contra aquilo com esta velocidade.
Começaram a navegar lentamente. A brancura não desvendou seu mistério quando se aproximaram. Se era uma terra, devia ser uma terra muito estranha, pois parecia tão macia quanto a água e no mesmo nível desta.
(...)
Apinharam-se todos na amurada, curiosos:
– São lírios! – gritou Rinelfo. – Como num tanque de jardim.
Lúcia ergueu os braços úmidos, cheios de pétalas brancas e de largas folhas espalmadas.
– Qual é a profundidade, Rinelfo? – perguntou Drinian.
– Aí é que está, capitão. Ainda é muito fundo.
– Não podem ser lírios, pelo menos não aquilo que chamamos de lírios – resmungou Eustáquio.
Provavelmente não eram, mas pareciam. Conferenciaram e lançaram o Peregrino na corrente, começando a deslizar para leste, pelo Lago dos Lírios ou Mar de Prata, e aí começou a parte mais estranha da viagem. O oceano largo que haviam deixado nada mais era do que uma estreita fita azul perdendo-se no horizonte.
O mar parecia o Ártico e, se os olhos não tivessem se tornado tão agudos como os das águias, seria impossível suportar a visão daquela brancura, especialmente de manhã cedo. E a brancura, às tardes, fazia durar mais a luz do dia. Os lírios pareciam não ter fim. Dias e dias, elevava-se daquelas léguas de flores um odor que Lúcia achava quase impossível descrever: doce, sim, mas não estonteante, nem extremamente perfumado, um odor fresco, selvagem, solitário. Parecia entrar no cérebro e dar a sensação de que se pode galgar montanhas ou brigar com elefantes. Dizia:
– Sinto que não posso mais agüentar isso e, no entanto, não quero que acabe.
A viagem do Peregrino da Alvorada C.S. Lewis (pg 508-10 do volume único)

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